Arte não é Conhecimento

por Gregory J. Markopoulos

Em uma recente excursão ao mosteiro da Cartuxa, em Valsainte, me disseram que haviam não mais que vinte irmãos[1]. Como protetores da floresta e das terras que possuíam viviam em pacífica reclusão do mundo exterior. Os jardins, os produtos eram de uma qualidade excepcional e eu tinha certeza de que era pela medida de sua dedicação diária que o que eu via diante de mim havia durado e duraria além de toda medida.

Não é diferente com a tarefa estabelecida por Robert Beavers para seu próprio trabalho. Quem, em tal idade, sob as duras pressões do que hoje é chamado de civilização, tomaria tal cuidado magnífico com sua obra? Um ou dois: Beavers. Beavers, que demonstra uma tenacidade de Intenção raramente, se é que alguma vez vista na breve história do meio cinematográfico, muitas vezes pervertido, embora consistentemente, pelas necessidades comerciais de um mundo em profunda raiva consigo mesmo.

Fazer o trabalho não é algo difícil. Dar substância ao trabalho feito e fazê-lo irradiar é, no entanto, algo muito, muito difícil.

O que é algo que poucos iriam tentar conscientemente. É, talvez, na abundância que milagrosamente rodeia Beavers que uma luz particular, invisível, sempre o protege de um excesso em sua criação cinematográfica. Agora devo falar da nova obra, Work Done [EUA, Robert Beavers, 1973].

Work Done foi iniciado na Itália, continuado na Suíça e concluído novamente na Itália. O sentido final dessa obra é que ela não parece ter fim. Duvido que até mesmo a trilha sonora tenha um fim aparente.

O que isso significa? Significa que Beavers chegou, foi guiado por alguma força às cavernas secretas de seu ser. Ele não pesquisou para fazer o filme. Mas ele buscou; e porque buscou, foi recompensado com uma obra que é tão fresca e pura quanto o ouro. Sua alquimia é agora e para sempre indiscutível.

Beavers começa com o objeto de um pedaço de gelo. Ele termina com as imagens horríveis e intermináveis das panquecas de sangue encontradas e filmadas em Florença, Itália. Na abertura do gelo está o silêncio de uma voz estranha e misteriosa. Nas panquecas de sangue essa voz, sem nome, fala. É o curso do sangue, a Humanidade. E mais do que humanidade, é o nascimento sutil de um novo Som, um som do meio cinematográfico que permanecia irreconhecível. Brakhage falou que o cinema não precisa de som, mas sua obra é impura. É, de fato, contaminada. Quão diferente da obra que é Work Done.

O conhecimento a ser encontrado em Work Done é aquele que a alquimia, ciência e arte sempre tentaram descobrir, mas sempre falharam em encontrar em suas tentativas desesperadas de entreter, de produzir os frutos do conhecimento ou da arte. É a Beavers, com seu grande amor e insistência na medida rigorosa de tudo o que vê e toca, que o meio, seu meio, o cinema, permitiu falar no sentido mais puro. O sentido que dá outras cores aos leitos dos rios, às florestas, às montanhas e à figura humana.

A razão por trás disso é de que, como Beavers disse ele mesmo, ARTE NÃO É CONHECIMENTO. E ao dizer isso ele multiplicou o que não era sua primeira intenção; ele soprou para o espectador de cinema a primeira de suas Palavras Celestiais: Work Done.

Hoje, quando um cineasta como Beavers ouve, como ouviu outro dia, que os críticos de cinema não permitiriam que sua obra fosse exibida (embora nem sequer a tivessem visto) porque não estavam mais interessados no cinema criativo, torna-se necessário seguir o caminho difícil que é o da Linha No Horizonte. Mais uma vez, um ou dois o farão; Beavers o fará. Os outros debaterão consigo mesmos tentando descobrir o que é o cinema; e, ao final desse episódio particular, perceberão, aqueles que vierem a ver as obras de Beavers em sua Tela de Cristal, que, para criar, é preciso estar consciente dos elementos que conduzem às alturas da Luz, da Cor e do Som.

6 de setembro de 1973, Charmey

A caminho de Berna, Eros tendo completado o som de Work Done

Gregory J. Markopoulos

(Gregory J. Markopoulos. “Art is not Knowledge”. In.: “Film as Film: The Collected Writings of Gregory J. Markopoulos”. Londres: The Visible Press, 2014. Traduzido por Lain Hatvsne)


[1] NT: O termo “irmão”, assim como o seu feminino, se refere a membros de um instituto ou ordem religiosa cristã que devota sua vida a seguir Cristo