NO TEMPO SEM DILIGÊNCIAS: PENSAMENTOS SOBRE A FALSA SUPERAÇÃO DAS TRADIÇÕES FUNDADORAS DO WESTERN

Por Lucas Lobo

(Cena do Filme No Tempo das Diligências)

Passada a última diligência, bravamente por perigoso território Apache, ainda que não pudesse haver algo maior que a (in)dignidade das personalidades que, juntas, atravessam os caminhos entre passado e futuro, mais que a construção de um novo tempo, de um novo espaço e de um novo pensamento, consolidava-se, na poeira levantada pelos cavalos, todos os códigos que poderemos chamar com ignorância de cultura, mas que prefiro tê-los como tradição. “Com ignorância”, por tudo que virá a ser dito quanto ao jargonismo da linguagem especializada em comportamentos de internet (aka moralização baseada em repetição), mas em especial pelo que há de mais importante na autocrítica que deve ser tomada pela cinefilia verdadeiramente mais séria em nossos tempos. Quanto a fala de Godard ao sentido de cultura, em muito o sentido da tradição se dissipa como essência do reacionarismo; o que de fato é um limiar a se cuidar, uma corda fina que segura o sentido de tradição como não sendo um conceito de rigidez e oposição aos progressismos. A contracultura, ou o apelo à arte como contradição da cultura, em nada deve rejeitar que determinadas consolidações as são devido a relevância indissolúvel de sua tradição – que só pode ser tradição por em vezes também ter sido subversão.

Vejam como em todo papel de revisionismo operado pelo Western clássico há potência em romper com:

  1. A narrativa cantada e transmitida pela oração dos eventos filmada e redescoberta pela câmera;
  2. A intrínseca condição de reacionarismo, em condição de colonização, deslocada pelo processo de coletivização dos espaços através da filmagem.

O Western, reacionário, dos autores conservadores e representantes máximos de tempos de reafirmação do nacionalismo pós-crise de 29, em toda presença na tradição cultural estadunidense, fez-se ventilar os ventos de subversão da crítica e da imagem. Tão grande quanto o apontamento anacrônico de seus preconceitos é a capacidade dos gigantes do Western clássico em pensar a ocupação e a coletivização dos novos espaços em presença conjunta. Incrivelmente, maior que as perseguições de cavalo ou o tiroteio eternamente reimaginado, a conjuntura de necessidade de união entre a escória daquelas micro-sociedades é o que torna a tradição do Western uma tradição passível de subversão – portanto, passível de se ter para além do que a fez tradicional. Ora, o que há de mais revolucionário que esta permissão?

A percepção comum de repulsa às movimentações ideológicas da plena razão desses filmes esquece de levar em consideração, assim, o que há de mais essencial na mise-en-scène deles, que é justamente essa ventilação, essa permissão. Não surpreendentemente, a posição de revisionismo é redirecionada do narrativo aos seus processos de antecedência – embora, não somente com o Western, o movimento de rejeição à tradição consolidada pela crítica na identificação dos já ditos códigos gere as diversas categorizações do pós-qualquer-coisa, que em nada se interessa pelo qualquer coisa. O Western hoje em nada está interessado no comportamento em que se baseia, bastando-se em postar como contradição aos sentidos problematizados. É o que torna o redirecionamento da revisão, saindo do contexto temporal para a revisão do que esse passado consolidado do gênero errou por tantos anos. Uma fraude da transgressão. Nem nos próximos 300 anos Os Colonos [Los Colonos, Chile/Argentina, Felipe Gálvez,  2023] terá a eloquência dos piores de John Ford – não simplesmente por ser um filme péssimo, mas sim pela prepotência que os rejeitadores da tradição carregam. O Mubi-western mata o que já foi aqui citado como o essencial da tradição, que por conseguinte é o essencial dos donos do gênero: a capacidade de subversão. Quando a motivação está pautada em um norte de correção dos antepassados errôneos, instantaneamente é anunciado o fim da capacidade deste objeto de se reinventar em si mesmo, a capacidade deste objeto de agredir sua tradição pelo respeito que não se orgulha em nutrir.

Deste modo, o público que vem se habituando, crescendo junto da crescente desse posicionamento, ojeriza não a reinvenção desorientada dos nortes da tradição, mas sim a própria tradição por conter os contrastes que, sim, poderiam se subverter diante de um verdadeiro amor aos estabelecimentos do gênero. O Western se esfarela em mãos que o rejeitam; não somente de uma cinefilia famélica de referências, mas também de uma produção contente em alimentar esse vazio desorientado e rabugento. O moralismo do público esculpido por essas realizações de disrupção complacente ocasiona, da instrumentalização do objeto, o enterro da capacidade de se encarar os novíssimos interesses por subversão. Uma pobreza que jamais encontrará a beleza antropofágica em comer seus adversários políticos como parte da própria intelectualização.