O TESTAMENTO DE DEUS, JACQUES TORNEUR (1950)

Por Enrique Valentino da Silva

(Cena do Filme O Testamento de Deus)

Em Como Era Verde O Meu Vale [How Green Was My Valley, EUA, John Ford, 1941], acompanhamos as memórias saudosas de Huw Morgan (Roddy McDowall) durante sua infância numa pequena vila no País de Gales. Assume-se, com o voiceover e cena inicial, o narrador em primeira pessoa. Com isso, uma pergunta paira durante toda a projeção: O que vemos quando Huw não está em cena? Huw, por exemplo, não chega a presenciar boa parte da relação entre sua irmã Angharad (Maureen O’Hara) e o pastor Merddyn (Walter Pidgeon). Ora, supõe-se ser parte de uma formulação do próprio narrador, vítima da própria nostalgia, a completar lacunas do seu tão valioso passado, numa espécie de liberdade poética do personagem, consciente ou inconscientemente. A memória assume um papel ambíguo, real e ideal ao mesmo tempo. A complexidade da situação se dá até mesmo pelo uso do preto e branco da película: nunca saberemos, de fato, como era verde o vale de Huw.

9 anos depois de Como Era Verde O Meu Vale, Jacques Tourneur assina o filme O Testamento de Deus [Stars In My Crown, EUA, Jacques Tourneur, 1950], cuja partida principal se assemelha em muito ao filme de Ford. Acompanhamos as memórias de John Kenyon (Dean Stockwell), sua vivência com seu pai adotivo e pastor Josiah Gray (Joel McCrea) e de sua relação com a pequena cidade de Walesburg, no sul dos EUA. Diferentemente de Como Era Verde O Meu Vale, em O Testamento de Deus, o narrador não se localiza precisamente no tempo, tampouco no espaço. Sabemos que Huw está nos seus 50 anos, deixando sua vila natal, olhando para o passado como uma forma de conforto e aprendizado perante a imprevisibilidade e incerteza do futuro. Sobre John Kenyon, ouvimos apenas sua voz adulta, sem contexto temporal ou espacial algum. Há apenas o indicativo do futuro.

Cria-se, então, uma nova dinâmica, um tanto quanto mais dúbia. Com a junção do imaginário mitológico do Western e do narrador de motivações desconhecidas em um futuro incerto, Tourneur produz uma espécie de ambiente místico, cujas imagens estão quase que permeadas por influência de uma força sobrenatural. Sobrenatural pois, como Lourcelles definiu: “a originalidade da obra de Tourneur (…) consiste no fato de que a parte da expressão se apagou quase completamente em prol da parte da criação“.1 Como se sua obra surgisse do próprio nada. Talvez o maior feito de Tourneur em O Testamento de Deus seja a habilidade de desaparecer por completo como realizador e trazer à tona a própria mise-en-scène, um mundo precisamente harmônico em sua constituição, de profunda densidade, numa espécie de cinema bruto, rarefeito. Numa encenação como que de nulidade, um equilíbrio pleno, de diversas contraposições, onde um elemento sempre encontra um outro elemento de força igual e contrária.

Muitos contrastes me vêm à cabeça, sendo o principal deles possivelmente a cena do milagre em Faith (Amanda Blake), que é rapidamente sucedida por Famous sendo ameaçado em sua casa por membros da Ku Klux Klan. Outro contraste, esse que permeia o filme inteiro, é o embate entre fé e ciência que se dá pelos personagens de Gray e de Doc Harris Jr (James Mitchell). Mas gosto de recordar do trecho em que John e um amigo conversam sob o feno ao andar da carroça. A cena, de simples contemplação cotidiana, tem início logo após a ajuda de Jed (Alan Hale) e sua família à Famous (Juano Hernández) , que acaba de ter sua casa e fazenda destruídos. No segmento, as crianças ajudam Jed a colocar feno na carroça, que em seguida os leva até a escola.

Vemos a conversa se iniciar em um plongée, ao lento andar da carroça, com as crianças deitadas ao feno. Não como uma inferiorização convencional numa vista de cima para baixo, mas como se numa subjetiva das próprias forças divinas a zelar pelas crianças. O Sol é forte. As sombras dos galhos das árvores balançam e se projetam nos meninos e, nos momentos seguintes, os garotos e a natureza se tornam um só. Um corte revela o contraplano, e vemos as árvores movendo-se lentamente numa subjetiva das crianças. Estabelece-se a relação espacial: uma pequena carroça em movimento e a infinitude do céu.

John indaga: “Se você fosse Deus, qual seria a primeira coisa que você faria?” Logo em seguida, complementa: “Eu faria com que fosse verão o ano inteiro. (…) Eu colocaria tudo no verão, porque isso é tudo que teria, apenas verão o tempo inteiro”. Seu desejo, em outras palavras, era o de tornar aquele próprio instante de contemplação uma eternidade. Tornar o local idílico em que passeiam no próprio paraíso. Tourneur, então, através da captura da câmera, cumpre o desejo de John, imortalizando o momento dos meninos. A sequência se encerra com as crianças chegando na escola, ainda nas suas confabulações, enquanto John toma água do poço envenenado.

(Cenas de O Testamento de Deus)

De todo o campo mítico do Western, as contradições tornam-se as mesmas da sociedade americana. O filme não descarta o americano ideal, o indivíduo de moral e fé que, por mais que postos em dúvida em certos segmentos, permanecem inabaláveis. Na verdade, ao mesmo tempo que reconhece sua potência, reconhece sua limitação. Reconhece uma sociedade de reconciliação total impossível. Gray, no segmento final do filme, pode ter impedido a morte de Famous pelos membros da Klan com a vontade de Deus (“It’s the Will of God”, no qual há um jogo de palavras: “will” pode ser traduzido tanto como “testamento” quanto “vontade”), mas Famous o encara como Sísifo encararia alguém que lhe ajudasse a levar a pedra até o topo da montanha. Sua feição não é de alegria nem de libertação, mas de alívio momentâneo. As estruturas permanecem as mesmas, e as engrenagens sociais continuam a girar da mesma forma de antes. O alívio do final do segmento é seguido de uma cena final tanto irônica quanto melancólica: numa união de todos de Walesburg, tanto Famous quanto muito provavelmente os membros da Klan, na igreja ao som da música que dá nome ao filme.

As contraposições criam um impasse. Há uma espécie de beleza amarga, insolúvel, mas que sempre persiste. Lourcelles caracterizou o mundo dos filmes de Tourneur como o mundo da tenacidade, mundos onde surpresas (e suas ausências) se anulam.2 Há, no final, algo que sempre persevera.

O que, então, persiste? Fico na cabeça com a imagem das crianças que, num último momento de pura inocência, antes do espectro da morte rondar Walesburg através da febre tifoide, presenciam atônitas ao show de mágicas. Tourneur filma de perto e em suaves pans, suas reações estarrecidas, todas encantadas pela possibilidade do impossível. O mágico traz consigo em seu show, em letras garrafais no seu palco, o escrito: “Há esperança”. De fato, de fato.

  1. Jacques Lourcelles, “Nota Sobre Jacques Tourneur”, Présence du cinéma no 22-23, outono de 1966, pp. 52-55 ↩︎
  2. Id. Ibid. ↩︎