Por Gabriel Feijão Marinho

(Cena do Filme Onde os Fracos não tem Vez)
Quando se pensa em faroeste, logicamente, o que vem à mente em primeira ordem são os clássicos produzidos entre os anos 30 e 60. Alguns talvez pensem sobre alguns faroestes da década de 90.
Particularmente, pensei e até estruturei um texto sobre Os Imperdoáveis [Unforgiven, EUA, Clint Eastwood, 1992], e outro sobre Rio Bravo [Rio Bravo, EUA, Howard Hawks, 1959]. Mas, ao passar do tempo, tornou-se perceptível para mim, após uma reassistida, que um filme necessário ao se abordar em uma revista de cinema como essa — com uma proposta que é estruturada em diferentes perspectivas — era Onde os Fracos Não Têm Vez [No Country for Old Men, EUA, Joel Coen/Ethan Coen, 2007].
Essa escolha é até curiosa. Não sou nem de perto um fã da filmografia dos Irmãos Coen; sinceramente, estou bem longe disso. Mas acredito que Onde os Fracos Não Têm Vez é o pico alcançado pelos diretores e que eles nunca chegaram perto do que foi feito aqui. Outra estranheza acerca de gostar desse filme é pelo fato de que ele é marcado pela influência da mídia televisiva, principalmente das séries da HBO, como Sopranos. Um detalhe que, na minha perspectiva, soa cômico sobre essa estrutura seriada do filme é a placa de um dos motéis que Llewelyn frequenta, onde está escrito: “HBO free”. Em uma metalinguagem possivelmente desproposital, isso demonstra que o filme está marcado pelo legado da produtora televisiva.
Mas vamos iniciar do começo. O filme abre com o cruel assassino Anton Chigurh cometendo barbaridades com uma arma de pressão e, depois, estrangulando um policial até a morte. Esse início é frenético e compõe uma esquematização violenta e sanguinolenta que acompanha a construção do personagem interpretado de maneira brilhante pelo ator espanhol Javier Bardem. De forma diametralmente oposta, o filme nos apresenta Llewelyn, personagem interpretado por Josh Brolin, que representa a figura de um cowboy contemporâneo. O primeiro contato com ele se dá em uma cena em que caça veados, mirando-os com um rifle. Ele erra o tiro, e os veados se dispersam pelo lúgubre deserto. Logo, uma sombra vem na direção do protagonista, praticamente demonstrando o mal que se aproximava.
Ele desce até aquela imensidão desértica e se depara com carros, corpos de pessoas mortas, armas de alto calibre e apenas um sobrevivente, que pede água. Mas ele nega e segue caminho, procurando por uma mala de dinheiro, que consegue e leva para sua casa junto com algumas das armas.
Onde os Fracos Não Têm Vez vai seguir aquela máxima de Todos os Homens do Presidente [All the President’s Men, EUA, Alan J. Pakula, 1976]: “Siga o dinheiro”. A maleta que Llewelyn carrega possui um rastreador, tornando-o logo um alvo fácil para Chigurh.
Surge então a figura mediadora entre a loucura psicótica de Chigurh e a ingenuidade caipiresca de Llewelyn: o xerife, interpretado sobriamente por Tommy Lee Jones. Ele age como o ponto de lucidez em meio à barbárie horrorífica da contemporaneidade, tentando entender por que todo o desencadeamento de atos da narrativa está acontecendo.
O que denota o primor dessa narrativa são as características de cada um desses personagens e como elas se encaixam na trama.
Por exemplo, a imprevisibilidade psicótica de Chigurh torna qualquer cena com ele altamente tensa e desesperadora, enquanto a ingenuidade de Llewelyn gera um sentimento empático em que cada cena se torna um martírio pela sua existência. Já as cenas com o xerife revelam sempre sua fragilidade diante dos acontecimentos criminosos, uma vez que este não está mais em condições de lidar com a situação devido às suas limitações físicas e temporais, não há espaço para a ingenuidade e a velhice em um país tão violento.
Talvez esse ciclo de violência que torne este filme tão importante em tempos hodiernos, uma vez que configure um retrato de um país e não de um tempo como se questiona o xerife ao longo da obra. Os Estados Unidos não tornou-se um país mais violento devido à condicionantes individuais, mas pela forma em que o capitalismo cada vez mais gera estruturas para a consolidação do narcotráfico, da violência policial e do crime, de modo geral.
Tal percepção intensifica-se na obra, a partir do rigor da mise-en-scéne, que explora desde os motéis e prédios onde há a perseguição de Chigurh e Llewelyn até o árido deserto que guarda a violência aterradora do novo ciclo do narcotráfico.
Ademais, isso denota uma sensação de desesperança no término do filme, o sentimento de que essa barbárie que o filme coloca na figura do Chigurh segue escalando e as forças policiais não são mais capazes de conter, uma vez que já se enxerga uma ordinariedade nos atos praticados pelo personagem de Bardem. Há uma banalização da violência tão grande que esta figura simplesmente age para matar sem explicações ou uma lógica financeira, mas simplesmente mata para viver, ou pelo menos, sobreviver.
Quando o xerife recebe a informação de que a “coisa” que atingiu a cabeça do homem morto na primeira cena do filme não poderia ter sido realizada por um disparo com arma de fogo, ele insinua ironicamente que o causador daquilo teria perfurado a cabeça da vítima até atravessá-la. Uma informação que o xerife não sabe mas é de conhecimento do espectador é que o homem morto na cena inicial sofreu um disparo de uma arma de pressão, uma ferramenta utilizada para matar bois.
Diante disso, se encontra o filme. Llewelyn, assim como um boi, tenta escapar, grita, se desespera; Mas no fim, seu destino será o mesmo de um animal bovino. Ainda que seu derradeiro fim não tenha sido causado pelas mãos de Chigurh, mas sim por narcotraficantes mexicanos, demonstrando que a violência perpetrada pelo personagem de Bardem não é única, assim como o sofrimento de Llewelyn não será solitário: os homens e os bois são muitos.