WESTERN EM DISPUTA: DO MITO CLÁSSICO AO REVISIONISMO PROGRESSISTA

Por Miguel Serqueira

(Cena do Filme Sangue de Heróis)

O western é, sem dúvida, um dos gêneros mais importantes do cinema. Não apenas por sua popularidade e importância histórica, mas também  por sua capacidade de expressar, de maneira simbólica e formal, a relação entre o homem, a natureza e a sociedade. No período clássico, que se estende aproximadamente das décadas de 1930 até os anos 1960, o gênero consolidou uma estética clara e precisa, na qual a forma era inseparável do sentido. Os enquadramentos amplos permitiam ao espectador compreender a geografia da cena com total clareza: cada plano mostrava a posição exata dos personagens em relação em relação aos demais e ao espaço que ocupavam, e a montagem seguia um ritmo orgânico que respeitava a continuidade da ação. Nessa estrutura, a paisagem não era mera decoração, mas elemento ativo da narrativa. Monument Valley, tão recorrente nos filmes de John Ford, não é apenas o cenário para a travessia de uma caravana em No Tempo das Diligências [Stagecoach, EUA, 1939], mas um agente dramático que enfatiza a grandeza e o isolamento do homem frente à natureza, tornando cada obstáculo físico também um desafio moral. Essa cena da diligência atravessando o deserto, enquadrada em planos gerais abertos, evidencia como a paisagem organiza o drama, simbolizando tanto o perigo quanto a promessa de conquista. O herói clássico do western se revela por suas ações: basta que conduza a diligência, organize a defesa de uma cidade ou enfrente um criminoso para que sua moralidade seja percebida. Em Rio Vermelho [Red River, EUA, Howard Hawks, 1948], a sequência da condução do gado é emblemática nesse sentido. A câmera acompanha o movimento coletivo como se registrasse uma coreografia, e cada decisão do protagonista, interpretado por John Wayne, não é apenas logística, mas um gesto de liderança e ética. O gênero clássico, desse modo, se torna uma narrativa sobre a consolidação da ordem, refletindo os ideais de coragem, autonomia e coesão comunitária da sociedade americana do pós-guerra. Nessa fase, o western funcionava como um espaço de afirmação de valores compartilhados, celebrando coragem, trabalho coletivo, autodisciplina e o mito da fronteira como laboratório de formação do caráter nacional. Algo que alcança talvez sua expressão mais ambígua em Rastros de Ódio [The Searchers, EUA, John Ford, 1956], onde a paisagem monumental serve tanto como promessa de expansão quanto como espelho das obsessões de um herói dilacerado, antecipando tensões que se tornaram centrais no revisionismo.

No entanto, essa clareza formal e moral estava intrinsecamente ligada a um ponto de vista hegemônico. O herói era quase sempre branco e masculino, e a visão do Oeste representava a perspectiva do colonizador. Povos indígenas, mulheres e minorias eram frequentemente relegados a papéis secundários ou estereotipados, servindo como obstáculos ou complementos da narrativa do herói. A paisagem, por mais grandiosa, era interpretada quase exclusivamente como território a ser conquistado ou civilizado, reforçando a narrativa do progresso e da ordem.

Embora o revisionismo no western tenha se consolidado a partir do final dos anos 1960, essa transformação não ocorreu de forma súbita: foi um processo lento e gradual, já pressentido em filmes pré-revisionistas que introduziram fissuras no modelo clássico. Em obras como Sangue de Heróis [Fort Apache, EUA, John Ford, 1948], questiona-se a autoridade militar ao mostrar que a hierarquia pode conduzir ao desastre, enquanto Winchester ’73 [EUA, Anthony Mann, 1950] desloca o heroísmo para um terreno de obsessão e ambiguidade moral. Nessa última obra, uma cena específica sintetiza essa ambiguidade: o duelo entre irmãos pelo rifle-título, filmado em close-ups tensos e ângulos oblíquos, rompe com a clareza moral da tradição, revelando como a obsessão individual substitui a coesão comunitária. Esses filmes, portanto, pertencem a uma fase de transição em que a narrativa clássica começava a ser tensionada, refletindo uma sociedade que já percebia a fragilidade da autoridade e o peso da violência. O pré-revisionismo indica que a ordem não era tão estável quanto parecia, e que a fronteira podia ser palco de conflitos internos insolúveis.

Com a virada cultural dos anos 1960, esse movimento se intensificou, e o western passou por uma mudança profunda que o tornou revisionista. Esse novo estilo, refletindo a desconfiança nas instituições, a polarização política e o desencanto com os mitos fundadores da sociedade americana, questionava tanto a moralidade do herói quanto os princípios estruturantes do gênero. O revisionismo alterou a gramática visual do western de maneira significativa. Em Meu Ódio Será Sua Herança [The Wild Bunch, EUA, Sam Peckinpah, 1969], a violência deixa de ser estilizada para ser brutal e imprevisível. A sequência do tiroteio final é exemplar: a câmera lenta fragmenta os corpos em explosões de sangue, alternando com cortes abruptos que desorientam o espectador, transformando o espetáculo em choque. A geografia da cena não é clara nem reconfortante: a violência ocorre em planos desordenados, negando a previsibilidade e a ordem moral típica do western clássico. A fotografia adota tons sujos e escuros, muitas vezes subexpondo a luz natural, reforçando a sensação de que o mundo representado é instável e hostil, como se vê também em Pat Garrett & Billy the Kid [EUA, Sam Peckinpah, 1973]. Portanto, o western refletia uma sociedade marcada por protestos, contracultura e questionamento da autoridade: os filmes revisionistas espelhavam o ceticismo do público em relação a heróis absolutos e narrativas simplistas, introduzindo ambiguidade moral, conflito interno e crítica social, aproximando o gênero da complexidade da experiência histórica.

O revisionismo não se limita à forma, mas altera profundamente a temática. O herói, antes mediador moral e restaurador da ordem, torna-se um homem marcado pelo fracasso, pela culpa ou pelo pragmatismo frio. A violência, antes instrumento para instaurar justiça, passa a ser um fenômeno sem sentido ou com consequências imprevisíveis, evidenciando o custo humano e moral das ações. Em Quando os Homens São Homens [McCabe and Mrs. Miller, EUA, Robert Altman, 1971], a paisagem enevoada e indistinta reflete a dissolução das certezas do gênero clássico: as cidades de fronteira não são centros de civilização emergente, mas espaços de precariedade e decadência. A cena final, em que McCabe (Warren Beatty) agoniza sozinho na neve enquanto a cidade está distraída tentando apagar um incêndio, é a negação absoluta do heroísmo clássico. O silêncio da morte, sobreposto ao som da comunidade indiferente, transforma a ação em tragédia melancólica.

Clint Eastwood, com Os Imperdoáveis [Unforgiven, EUA, 1992], demonstra como o revisionismo pode dialogar com a tradição clássica sem repeti-la. O duelo final com Little Bill (Gene Hackman) ocorre em um bar, com luzes fracas, enquadramentos fechados e ausência de música, desmontando qualquer ideal de heroísmo cinematográfico. A violência é rápida, despojada e desprovida de glamour; o protagonista, embora ainda seja o centro da ação, não é um símbolo de moralidade, mas um homem marcado pelo passado, pela violência e pelo pragmatismo. Esse filme exemplifica a tensão entre a memória do gênero e a necessidade de visitá-lo criticamente, incorporando consciência histórica e ética.

Hoje, o western sobrevive em outra chave: a de um revisionismo contemporâneo progressista, que não apenas critica o passado, mas busca reinscrever nele rostos e vozes que foram calados. Kelly Reichardt, em O Atalho [Meek’s Cutoff, EUA, 2010], filma a travessia da caravana pelo olhar das mulheres, transformando o espaço monumental em labirinto de incertezas. Uma cena em que as mulheres, isoladas dos homens, discutem se confiam ou não no guia Meek (Bruce Greenwood), evidencia como o ponto de vista feminino desmonta a lógica patriarcal do gênero. Chloé Zhao, em Domando o Destino [The Rider, EUA, 2017] aproxima o mito do cowboy da vulnerabilidade de um corpo ferido, incapaz de sustentar a própria fantasia heroica. Jeymes Samuel, em Vingança e Castigo [The Harder They Fall, EUA, 2021] reposiciona o gênero ao colocar personagens negros no centro, reescrevendo não apenas a narrativa, mas o imaginário visual de um território sempre monopolizado por figuras brancas. Nesse contexto, mesmo filmes que dialogam apenas lateralmente com o gênero, como O Assassino da Lua das Flores [Killers of the Flower Moon, EUA, Martin Scorsese, 2023], ampliam essa tendência ao expor como a conquista do Oeste sempre esteve impregnada por violência estrutural contra povos indígenas, exemplificando como o western contemporâneo pode expandir seu alcance histórico e ético sem perder densidade formal e simbólica.

Esse revisionismo progressista aponta, portanto, para um gesto que vai além da crítica política: ele questiona quem tem o direito de narrar o Oeste e quem pode ocupar a posição do herói.  No entanto, ao mesmo tempo em que amplia horizontes e corrige exclusões históricas, levanta uma questão inevitável: qual é, afinal, o sentido do revisionismo? Revisar é sempre necessário? Estamos diante de uma necessidade histórica de subverter uma lógica hegemônica e dar voz aos silenciados, ou diante de uma vontade moralizante de julgar o passado a partir dos parâmetros éticos do presente? Esse dilema é central. Há uma potência real no gesto de tornar o western um gênero plural, capaz de representar identidades que sempre estiveram ali, mas nunca foram mostradas. Por outro lado, há também o risco de que o revisionismo se transforme numa simples operação de correção moral, um acerto de contas simbólico que pouco dialoga com a riqueza formal e narrativa do gênero original. Em outras palavras: revisar para ampliar a imaginação coletiva é uma coisa; revisar apenas para satisfazer um imperativo moral pode empobrecer o cinema, reduzindo-o a veículo de mensagem.

Talvez o sentido mais profundo do revisionismo não esteja em negar o passado nem em julgá-lo, mas em manter vivo o atrito entre tradição e crítica, entre mito e desconstrução. O western clássico oferecia uma épica de fundação; o revisionista político revelou a sombra dessa épica; o progressista contemporâneo busca reinscrever nela a diversidade da experiência humana. O que une todos eles, porém, é a consciência de que o mito nunca se fecha: ele se refaz, se contesta, se fragmenta. E é nessa tensão, nesse espaço instável entre a fábula e sua desconstrução, que o western continua a respirar — não mais como certeza, mas como campo de disputa, como lugar em que o cinema pergunta, insistentemente, quem somos, quem fomos, e quem ainda queremos ser. O ultimato que o revisionismo nos coloca, portanto, não é apenas ao cinema, mas à própria imaginação coletiva: revisar é necessário enquanto gesto de abertura, enquanto forma de manter o mito vivo, múltiplo, poroso ao tempo. Mas se revisar se transformar em um mero exercício de conforto moral, de adaptação de símbolos a uma ética do presente, então o risco é dissolver o gênero em didatismo, matando aquilo que o fez grande — sua força estética, sua ambiguidade, sua tensão entre mito e realidade. O western sobrevive, hoje, não porque se corrija, mas porque continua a ser campo de disputa. O ultimato é claro: o revisionismo fortalece o mito quando o instiga; mas, se o domesticar, mata o que queria salvar.